sexta-feira , 14 dezembro 2018
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Testando restrição de crédito a partir do crédito direcionado

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Imperfeições no mercado de crédito estão entre as principais causas da baixa produtividade agregada de um país. No entanto, são várias fricções financeiras, operando de forma simultânea e, na maioria das vezes, afetando diversos agentes ao mesmo tempo. Assim, apesar de sua importância, não é fácil mensurá-las, nem medir isoladamente seus efeitos.

Inicialmente, trabalhos como o de Rajan e Zingales (1998), a partir de comparações entre países, registraram que setores mais dependentes de financiamento externo cresciam menos em países com mercado de capitais incipiente. Consolidaram-se os indícios formais da importância das restrições financeiras no desenvolvimento econômico, mas não uma relação causal clara. Seria o mercado financeiro pouco desenvolvido pela falta de dinamismo desses setores ou o contrário? Haveria espaço ainda para terceiros fatores (políticos, sociais, institucionais) gerarem essa correlação entre acesso ao crédito e crescimento econômico?

Trabalhos, com viés experimental, geraram micro-evidências da importância do acesso ao crédito, mas tais trabalho se concentraram no microcrédito e seus efeitos sobre crescimento de empresas pequenas. Mckenzie, De Mel e Woodruff (2009), por exemplo, forneceram 200 dólares aleatoriamente para microempreendedores do Sri Lanka e verificaram retorno considerável do capital entre os sorteados, próximo a 4% ao mês. Esses estudos provaram a existência de restrição de crédito e seus efeitos sobre crescimento do negócio de pequenos empreendedores. Seriam, contudo, essas evidências válidas também para empresas maiores? Para essas, a realização de experimentos se torna muitas vezes inviável, levando a busca por quasi-experimentos naturais, choques exógenos capazes de gerar exercícios análogos aos experimentos aleatórios. Foi o caso do estudo de Banerjee e Duflo (2014), que testou essa hipótese usando mudanças no acesso ao capital de giro entre firmas de médio porte na Índia. De acordo com esse estudo, sustenta-se novamente a tese de restrição ativa de crédito de curto prazo para firmas de pequeno e médio porte, com efeitos causais positivos sobre vendas e lucros. Porém, mantém-se a dúvida quanto à validade desses resultados para o acesso ao crédito de longo prazo e seus possíveis desdobramentos sobre variáveis importantes, como o investimento e a produtividade do trabalhador. Em estudo recente (Cavalcanti e Vaz, 2017) tentamos contribuir para um maior esclarecimento desse ponto e também dentro de um outro contexto econômico, já que os mesmos se concentram no caso brasileiro.

Aproveitando um choque gerado por linhas de crédito de longo prazo do BNDES, para um subconjunto de firmas brasileiras, nós testamos se há restrição a esse tipo de crédito para firmas de médio porte. O desafio para pesquisadores da área reside na definição cuidadosa de grupos de comparação para testar os efeitos da redução de fricções financeiras. A estratégia consiste em separar diferentes grupos, para os quais tudo mais os afeta de forma semelhante, exceto o acesso ao crédito de longo prazo. Mais precisamente, utilizamos o fato do BNDES ter oferecido condições de crédito privilegiadas a empresas de pequeno porte (como redução de 1.5 p.p. nas taxas de juros, menor garantia, etc) e de ter mudado seu critério de classificação de pequenas empresas em 2002 (passando o limite de receita anual de R$6 milhões para R$10,5 milhões). Em 2004, o banco decidiu estender as condições privilegiadas também para o restante das empresas de médio porte. Assim, observando empresas manufatureiras que operaram entre 2002 e 2004, foi possível classificá-las entre as pequenas (com receita abaixo de R$6Mi, durante esse período), as novas pequenas (com receita entre R$6Mi e R$10,5Mi) e as médias (com receita acima de R$10,5Mi). Uma vez classificadas, suas trajetórias no tempo foram traçadas entre 1996 e 2010. O “tratamento” estudado é a elegibilidade da firma às melhores condições de acesso a crédito de longo prazo; não a obtenção ou não do crédito, que é, no jargão econômico, algo endógeno e portanto contaminado por outras características não observáveis das empresas (ex., capital político). A interpretação do tratamento contemplaria, portanto, a redução de fricções financeiras para certos grupos de empresas.

A comparação entre os grupos foi lida da seguinte forma: ao confrontar as novas pequenas (tratadas) com as médias (tratadas dois anos depois), testamos como as firmas reagiram a uma mudança temporária de redução de fricções financeiras; enquanto a comparação entre as tratadas e as pequenas (sempre tratadas) mostra como as firmas reagiram a uma mudança permanente das condições de crédito. Nesse caso, as diferentes condições de acesso a crédito de longo prazo só existiram até 2002 entre os grupos tratado e de controle, se alterando permanentemente após esse ano.

 

Figura 1: Taxa de Investimento (Inv./Capital) por grupo de firmas

 

A trajetória descrita na figura 1 demonstra a mudança de comportamento médio entre as empresas tratadas, sugerindo a existência de restrição ativa de crédito de longo prazo. Contudo, trata-se da trajetória de médias incondicionais (sem controlar para as características observáveis das empresas) de taxas de investimento por grupo. A estimação dos efeitos causais sobre investimento e produtividade foram conduzidas tendo em vista características observáveis das firmas e não observáveis invariantes no tempo, entre outros. Os resultados sugerem a existência de restrição ativa para firmas de pequeno e médio porte, mas com algumas ressalvas. Para a mudança permanente das condições de acesso a crédito de longo prazo, registra-se efeito sobre a taxa de investimento (aumento de 30% ou 1 p.p. no período pós-tratamento) e sobre a produtividade do trabalhador e produtividade total dos fatores (aumento de aproximadamente 9%). No entanto, não há indício de efeitos da redução temporária das fricções financeiras (por 2 anos) sobre a média de investimento e produtividade dos seis anos seguintes.

O nosso exercício contribui com evidências a favor da existência de restrição ao crédito de longo prazo entre firmas de pequeno e médio porte no Brasil e para o entendimento dos seus efeitos sobre o investimento e a produtividade. Ressalta-se, porém, que a mensagem é mais ampla do que a política que gerou o choque e permitiu o estudo. O subsídio temporário ao crédito de longo prazo pode ter custo fiscal alto e os efeitos, nesse caso, parecem ser limitados. Por outro lado, a manutenção da política por períodos muito longos, apesar de surtir efeito sob o público alvo, pode não ser necessariamente a política mais adequada para o aumento do investimento e da produtividade das empresas. Além do custo alto e recorrente, as distorções geradas pela política em si podem resultar em má alocação de recursos entre firmas e terminar causando redução da produtividade agregada, caso haja desalinhamento na intervenção (ex., exagero nos subsídios). Reformas microeconômicas que reduzam as fricções financeiras permanentemente e horizontalmente podem ser soluções viáveis para a escassez de crédito de longo prazo para firmas de menor porte. Ponticelli e Alencar (2016), por exemplo, demonstraram a importância da qualidade do judiciário para que a lei de falência brasileira levasse a um maior acesso ao capital e, consequentemente, a maiores investimentos ao nível de firma. Ou seja, numa visão mais abrangente, mudanças institucionais que mitiguem falhas de mercado e reduzam distorções, de forma menos custosa do ponto de vista fiscal, poderiam contribuir para atenuar as restrições de crédito encontradas neste trabalho e contribuir para o aumento da produtividade. Não se trata de um caminho com promessas de fácil diagnóstico e solução milagrosa, mas certamente um guia baseado em fortes evidências empíricas.

 

Referências

Banerjee, A. V., & Duflo, E. (2014). Do firms want to borrow more? Testing credit constraints using a directed lending program. Review of Economic Studies, 81(2), 572-607.

Cavalcanti, T., & Vaz, P. H. (2017). Access to long-term credit and productivity of small and medium firms: A causal evidence. Economics Letters, 150, 21-25.

De Mel, S., McKenzie, D., and Woodruff, C. (2008). Returns to capital in microenterprises: evidence from a field experiment. The quarterly journal of Economics, 123(4), 1329-1372.

Ponticelli, J., & Alencar, L. S. (2016). Court enforcement, bank loans, and firm investment: evidence from a bankruptcy reform in Brazil. The Quarterly Journal of Economics, 131(3), 1365-1413.

Rajan, R. G., & Zingales, L. (1996). Financial dependence and growth (No. w5758). National bureau of economic research.

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Autor(es)

Paulo Henrique Vaz

Paulo Henrique Vaz é PhD em Economia pela University of Illinois at Urbana-Champaign (2014) e professor adjunto do Departamento de Economia da UFPE - Universidade Federal de Pernambuco. Sua pesquisa foca em questões sobre produtividade, desenvolvimento econômico e macroeconomia.

Tiago Cavalcanti

Tiago Cavalcanti é professor associado (reader) do departamento de economia da Universidade de Cambridge e editor associado do Economic Journal. Sua pesquisa foca em questões sobre macroeconomia e desenvolvimento econômico.

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