sexta-feira , 21 setembro 2018
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Vencedores e perdedores em um boom comercial de commodities por bens manufaturados

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A ascensão da China é um dos eventos mais importantes da economia mundial nas últimas décadas. Seu crescimento econômico vertiginoso teve enormes implicações dentro do próprio país, tirando da pobreza milhões de cidadãos chineses.

Entretanto, o crescimento chinês também gerou um grande impacto na economia mundial, impacto que ainda estamos tentando compreender inteiramente.

Economistas já documentaram que a competição gerada pela expansão industrial chinesa afetou consideravelmente os trabalhadores no setor de manufaturas em outros países. De acordo com Autor, Dorn e Hanson (2013), o número de empregos diminuiu mais rapidamente em áreas dos Estados Unidos que produziam bens que passaram a ser importados da China.

Efeito semelhante também foi observado em países da Europa. Por exemplo, Pessoa (2016) mostra que trabalhadores do Reino Unido inicialmente empregados em indústrias que competem com produtos chineses ganharam menos e ficaram mais tempo desempregados no início dos anos 2000.

Entretanto, a China não é apenas uma grande competidora para países industrializados. O país também se tornou um grande comprador de produtos produzidos mundo afora. Em particular, o apetite do rápido crescimento chinês alimentou o boom mundial de commodities no início da década passada.

Isto teve um grande impacto em países emergentes cujas pautas de exportações para a China passaram a ser dominadas por matérias-primas, como bens agrícolas, minérios e petróleo. As exportações de países de baixa e média renda para a China cresceram doze vezes entre 1995 e 2010. Em comparação, suas exportações para todos os outros países dobraram no mesmo período. A China, então, se tornou um parceiro comercial crucial para o mundo em desenvolvimento.

Em 1995, commodities representavam apenas 20% das modestas exportações desses países para a China. Já em 2010, commodities representavam cerca de 70% das exportações dos países em desenvolvimentos para a China (Figura 1A). Enquanto isso, as crescentes importações desses países de produtos chineses consistiam quase inteiramente em produtos manufaturados (Figura 1B).

A transição para esse novo padrão de relação comercial com a China tem sido recebida com reservas por seus parceiros comerciais. Por exemplo, em uma visita oficial à China em 2011, a então Presidente da República Dilma Rousseff declarou “Precisamos agregar valor antes de exportar, e não achar que é absolutamente natural que só exportemos produtos básicos.” (Estado de S. Paulo 2011).

Então, para países como o Brasil, como os custos da concorrência da indústria chinesa se comparam com o boom de commodities liderado pela China?

Em Costa, Garred e Pessoa (2016), artigo publicado recentemente no Journal of International Economics, nós investigamos como o crescimento vertiginoso do padrão de comércio em que o Brasil vende commodities em troca de manufaturas da China afetaram trabalhadores no Brasil. O caso brasileiro não foi uma exceção e a evolução comercial do Brasil com a China nos anos 2000 seguiu o padrão dos demais países não-desenvolvidos:

 

  • Primeiro, o comércio com a China explodiu: a China era o destino de apenas 2% das exportações brasileiras em 1995 e esse número subiu para 15% em 2010.
  • Segundo, a pauta de exportações para a China foi se concentrando em poucas commodities (Figure 2A). Em 2010, mais de 80% das exportações brasileiras para a China eram majoritariamente soja e minério de ferro. Entre 2000 e 2010, praticamente todo o crescimento na demanda por soja e minério brasileiro veio da China.
  • Por fim, da mesma forma como o resto dos países em desenvolvimento, as importações brasileiras da China cresceram rápido e quase exclusivamente de bens industrializados (Figure 2B).

 

Nós usamos o Censo Demográfico brasileiro de 2000 e 2010 para investigar como a situação dos trabalhadores em diferentes regiões e indústrias no país evoluiu durante o boom de comércio com a China.

Assim como em alguns países desenvolvidos, nós verificamos que durante esse período a competição das importações chinesas impactaram negativamente os trabalhadores da indústria. Nas regiões do Brasil que produziam bens manufaturados que vieram a ser importados da China (por exemplo, eletrônicos), o salário na indústria cresceu sistematicamente abaixo das demais regiões entre 2000 e 2010. O salário na indústria em uma região, entre as 20% mais afetadas pela competição chinesa, cresceu 0.8 pontos percentuais abaixo do salário na indústria em uma outra região entre as 20% menos afetadas pelas importações chinesas.

Entretanto, nossos resultados confirmam que algumas regiões e setores ganharam com o crescimento do comércio com a China. Os salários cresceram relativamente mais nas regiões que se beneficiaram do crescimento da demanda chinesa, principalmente regiões produzindo soja e minério de ferro. O salário médio em uma região entre as 20% mais beneficiadas pela demanda chinesa cresceu 0.9 pontos percentuais acima do salário médio em uma região entre as 20% menos afetadas pelas exportações para a China.

Nós também encontramos que a fração de trabalhadores em empregos formais cresceu mais nas regiões mais expostas ao crescimento da demanda chinesa. Diferentemente de empregos no setor informal, um trabalhador formal tem acesso a seguro desemprego, licença médica remunerada e outros benefícios. Dessa forma, esse crescimento em formalização pode ser interpretado como um aumento na compensação não-salarial desses trabalhadores.

Logo, enquanto os trabalhadores da indústria brasileira sofreram com a competição das importações chinesas, o aumento das exportações para a China beneficiou um outro conjuto de trabalhadores brasileiros.

Nosso estudo investiga apenas os efeitos causais de curto prazo do comércio com a China nos trabalhadores no Brasil. Dessa forma, nossos resultados não informam sobre todos os prós e contras do boom paralelo de exportações de commodities e importações de bens manufaturados. Por exemplo, nós não sabemos o que aconteceu com aqueles que ganharam com o boom depois que a economia chinesa desacelerou pós-2010.

Nós também não consideramos os benefícios potenciais que as importações chinesas deram aos consumidores brasileiros que passaram a ter acesso a bens mais baratos. No final das contas, o que nós encontramos indica que o comércio de bens primários por bens industrializados com a China pode não ter sido um mau negócio para países em desenvolvimento como o Brasil.

Figura 1: Fração de commodities no comércio de países em desenvolvimento

Notas: ‘Commodities’ incluem produtos agrícolas, florestais, pesca, setores mineradores e petróleo. ‘Países em desenvolvimento’ incluem países não-ricos como definido pelo Banco Mundial, excluindo os países do leste e sudeste asiático que tendem a participar da cadeia de produção da indústrica chinesa. Dados de comércio de CEPII BACI.

Figura 2: Fração de commodities no comércio do Brasil

Notas: ‘Commodities’ incluem produtos agrícolas, florestais, pesca, setores mineradores e petróleo. Dados de comércio de CEPII BACI.

 

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Autor(es)

João Paulo Pessoa

João Paulo completou recentemente seu PhD em Economia pela London School of Economics e é hoje professor assistente da Escola de Economia de São Paulo. Sua pesquisa foca nas áreas de comércio internacional e organização industrial.

Francisco Costa

Francisco Costa é Professor Assistente na FGV/EPGE - Escola Brasileira de Economia e Finanças, possui Ph.D. em Economia pela London School of Economics. Sua pesquisa concentra-se nas interseções de Economia do Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico e Microeconomia Aplicada. Atualmente é membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Econometria.

Jason Garred

Jason Garred é professor assistente da Universidade de Ottawa e possui Ph.D. em Economia pela London School of Economics.

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