sexta-feira , 21 setembro 2018
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Peso ao Nascer e Mortalidade Infantil

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Reduzir a taxa de mortalidade infantil – número de óbitos por cada 1,000 nascidos vivos –de forma custo-efetiva é uma preocupação básica para os governos e formuladores de políticas em geral.

Apesar dos importantes ganhos em todo o mundo durante as últimas décadas, a taxa de mortalidade infantil continua alta em muitos países em desenvolvimento. Isto tem levantado novos debates fervorosos sobre as causas da mortalidade infantil tanto na mídia popular quanto na academia. Embora esta seja uma questão inegavelmente complexa, a compreensão de causas específicas é necessária para o desenho eficiente de políticas públicas. Em Carrillo e Feres (2017), analisamos o grau ao qual a relação entre o peso ao nascer e a mortalidade infantil é causal no contexto do Brasil.

Muitos estudos tem mostrado uma surpreendentemente robusta e forte associação entre o peso ao nascer e a probabilidade de morrer ao interior do primeiro ano de vida. Através de diferentes grupos demográficos, sexos e países, bebês que nascem com baixo peso (menor do que 2,500 gramas) têm taxas mais altas de óbitos infantis. No Brasil, por exemplo, de acordo com o ministério da saúde, cerca de 70 por cento das crianças que morreram entre 2007 e 2013 nasceram com baixo peso. Ainda, alguns estudos documentam que as crianças que nascem com baixo peso que sobrevivem à infância são prováveis que sofram uma série de dificuldades de saúde e de desenvolvimento cognitivo, algumas das quais são conhecidas por afetar negativamente a aquisição de capital humano (Brooks et al., 2001; Matte et al., 2001).

Esta bem documentada correlação tem levado à posição de que o investimento na prevenção do baixo peso ao nascer tem retornos altos. Como um resultado, muitos governos e agências internacionais têm dedicado uma quantidade considerável de recursos para aumentar o peso dos bebês no nascimento. Na Índia, por exemplo, o Banco Mundial investiu aproximadamente 100 milhões de dólares em um programa de nutrição com o objetivo específico de reduzir a incidência de baixo peso em 50 por cento (The World Bank, 1998). Nos Estados Unidos, uma motivação para a expansão do Medicaid para mulheres grávidas durante os anos 80 foi também a redução da incidência do baixo peso ao nascer (Currie and Gruber, 1996). Aumentar o peso dos bebês ao nascer tem sido também a motivação de campanhas contra tabagismo materno em muitos países ao redor do mundo.

A ênfase da política pública no peso ao nascer reside fundamentalmente na afirmação de que qualquer política que trabalhe para reduzir a incidência de nascimentos com baixo peso necessariamente melhoraria a saúde infantil e, em particular, reduziria a mortalidade infantil. Vários pesquisadores, principalmente na área de economia, têm questionado se a forte correlação documentada por vários estudos epidemiológicos pode ser de fato interpretada de forma causal (veja, por exemplo, Oreopoulos et al., 2008). Tal relação poderia ser o resultado de terceiros fatores– mães menos favorecidas socioeconomicamente, por exemplo, são mais prováveis a ter bebês com baixo peso e dedicar menos investimento pós-natal.

Para tentar separar o efeito causal do peso ao nascer de terceiros fatores, os estudos de Almond et al. (2005), Black et al. (2007), e Oreopoulos et al. (2008) acompanham irmãos gêmeos desde o nascimento e analisam seus subsequentes indicadores de saúde. Comparar gêmeos é uma abordagem bastante atraente: receberam o mesmo tratamento durante a gravidez por parte dos pais e diferenças no peso ao nascer são atribuídas principalmente a diferenças na capacidade de absorber nutrientes na placenta. Logo, qualquer diferença observada na probabilidade de morrer entre dois irmãos gêmeos pode ser atribuída plausivelmente a diferenças no peso ao nascer. Usando esta abordagem, estes autores demonstram que o peso ao nascer tem muito pouco impacto sobre a mortalidade infantil nos Estados Unidos, Canadá e Noruega. Sucintamente, Almond et al. (2005) concluem:

A incidência de baixo peso ao nascer não é um alvo de política consistentemente confiável, se o objetivo final é minimizar a mortalidade infantil, problemas de saúde e os custos consequentes dos cuidados de saúde

Enquanto estes estudos têm avançado inegavelmente o nosso entendimento do impacto do peso ao nascer, estas conclusões são baseadas em evidências para países ricos. Uma questão natural que surge é se esses resultados podem ser extrapolados para os países menos desenvolvidos, onde a capacidade de remediar as consequências de pobres condições de saúde ao nascer é geralmente mais limitada. Em particular, em regiões mais pobres, os pais têm acesso mais limitado a serviços básicos de saúde, encarar restrições creditícias e menos acesso a programas formais de segurança social. Portanto, extrapolar os resultados de estudos para países ricos a áreas mais pobres poderia levar a avaliações de custo-benefício de política incorretas.

Apesar destas talvez óbvias colocações, não há evidência rigorosa do efeito do peso ao nascer no contexto de um país menos desenvolvido. O grande desafio para quantificar o impacto do peso ao nascer em países em desenvolvimento é que a disponibilidade e qualidade de dados de nascimento e óbito infantis é frequentemente mais limitada nesses países. Usar dados autodeclarados é problemático porque as mães poderiam lembrar seletivamente das informações. Além disso, a maioria das pessoas nas áreas rurais, especialmente na África subsaariana, não têm partos realizados em hospitais, levando, provavelmente, a um maior erro de medição do peso ao nascer.

Em Carrillo e Feres (2017), buscamos entender em que medida o peso ao nascer afeta a mortalidade infantil no contexto do Brasil. Em particular, tentamos seguir a linha adotada por estudos prévios para países mais ricos e acompanhamos gêmeos desde o nascimento até o primeiro ano de vida.

Em Carrillo e Feres (2017), nós confrontamos este grande desafio cruzando as informações de todos os registros de nascimentos ocorridos entre 2007 e 2012 com os registros de óbitos. Cruzando estes dois tipos de registros, temos informações detalhadas dos nascimentos (preenchida pela equipe de saúde no hospital), incluindo o peso do bebê e a data e causa de morte. Com esta rica informação, nós seguimos cerca de 20 milhões de crianças durante o seu primeiro ano de vida, em uma amostra praticamente livre de atrito. Estes dados nos permite usar a variação quase aleatória no peso ao nascer de crianças gêmeas para isolar seu efeito de outros fatores não observados.

Contrariamente a estudos prévios para países desenvolvidos, encontramos forte evidência de que o baixo peso ao nascer leva a taxas mais elevadas de mortalidade infantil. Mais especificamente, encontramos que nascer com baixo peso aumenta a taxa de mortalidade infantil em 6 óbitos por cada mil nascidos vivos. Enquanto este efeito pode parecer pequeno, esse valor representa ao redor de 16 por cento da taxa média de óbitos em gêmeos.  Encontramos efeitos muito maiores em magnitude para crianças que vêm de mães menos educadas, solteiras, e jovens. Os impactos são também maiores em áreas com baixa renda média, menos hospitais per capita e onde o gasto público em saúde é mais baixo.

Estes resultados mostram que os custos do baixo peso ao nascer podem ser altos no Brasil e, potencialmente, em outros países com menor renda per capita. Neste sentido, investir na redução da incidência do baixo peso pode diminuir os consequentes problemas de saúde nesses países. Se tal investimento é mais custo-efetivo que outros tipos de intervenções – como aquelas que buscam mitigar ou remediar problemas iniciais de saúde – é uma questão que deve ser abordada em pesquisas futuras.

 

Referências

Almond, D., Chay, K.Y., Lee, D.S., 2005. The Costs of Low Birth Weight. Q. J. Econ. 120, 1031–1083.

Black, S.E., Devereux, P.J., Salvanes, K.G., 2007. From the Cradle to the Labor Market? The Effect of Birth Weight on Adult Outcomes. Q. J. Econ. 122, 409–439.

Brooks, A., RS, B., Weitzman, M., Auinger, P., JT, M., 2001. IMpact of low birth weight on early childhood asthma in the united states. Arch. Pediatr. Adolesc. Med. 155, 401–406.

Carrillo, B., Feres, J., 2017. Low Birth Weight and Infant Mortality: Evidence from Brazil (No. 109), Rede de Economia Aplicada.

Currie, J., Gruber, J., 1996. Saving Babies: The Efficacy and Cost of Recent Changes in the Medicaid Eligibility of Pregnant Women. J. Polit. Econ. 104, 1263–1296.

Matte, T.D., Bresnahan, M., Begg, M.D., Susser, E., 2001. Influence of variation in birth weight within normal range and within sibships on IQ at age 7 years: cohort study. BMJ 323, 310–314.

Oreopoulos, P., Stabile, M., Walld, R., Roos, L.L., 2008. Short-, Medium-, and Long-Term Consequences of Poor Infant Health: An Analysis Using Siblings and Twins. J. Hum. Resour. 43, 88–138.

The World Bank, 1998. Second Tamil Nadu Integrated Nutrition Project.

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Autor(es)

Bladimir Carrillo

Bladimir Carrillo é doutor e mestre em economia aplicada pela UFV e bacharel em economia pela Universidad del Atlantico, Colômbia. Atualmente, é professor da UFV, onde leciona métodos quantitativos em cursos de graduação e pós-graduação.

José Feres

José Feres é doutor e mestre em economia pela Université de Toulouse. Atualmente é pesquisador do IPEA.

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