sexta-feira , 17 agosto 2018
Home / Sem categoria / Estradas, Comércio e Migração

Estradas, Comércio e Migração

Autora:

___

O dia 21 de Abril de 2017 marcou os 57 anos da inauguração de Brasília. A transferência da capital nacional da cidade do Rio de Janeiro para o interior do país em 1956 foi a concretização dos planos delineados pela constituição da recém-instaurada República do Brasil em 1891 e foi parte integral da “marcha para o Oeste”, cuja finalidade era povoar regiões até então inexploradas e garantir a defesa da fronteira. A criação de Brasília levou à construção das rodovias radiais ligando a nova capital nacional às outras capitais estaduais em oito direções.

Os benefícios econômicos gerados pela construção de estradas já são conhecidos há muito tempo pelos economistas, em especial por aqueles que estudam comércio internacional. Estradas, por reduzirem o tempo de viagem, integram os mercados regionais, fomentam o comércio interno de bens e reduzem os preços dos bens comercializáveis. Contudo, os benefícios econômicos das estradas podem ir além da integração dos mercados de bens.  Se tempos de viagem mais curtos reduzem os custos de migração e estimulam a mobilidade geográfica da mão de obra, outro efeito importante da construção de estradas pode ser uma maior integração também do mercado de trabalho. O artigo “The Effect of Roads on Trade and Migration”, em coautoria com Melanie Morten, da Universidade de Stanford, parte dessa premissa para identificar o impacto da construção das estradas sobre o bem-estar das pessoas, separando esse efeito em dois componentes: um atribuído à integração do mercado de bens, o que possibilita aos consumidores pagarem um preço mais baixo pelos bens de consumo; e outro atribuído à integração do mercado de trabalho, o que facilita o movimento espacial dos trabalhadores. Nosso objetivo é não apenas fazer essa decomposição, mas também realizar um exercício imaginativo: quais seriam as consequências para a economia se as rodovias radiais não existissem? Quanto seríamos forçados a consumir menos em virtude dos custos adicionais de transportar mercadorias? Quanto mais custoso seria migrar de uma cidade para outra?

Nosso primeiro passo foi o de quantificar o efeito causal das estradas sobre os custos de migração. Para isso, foi necessário superar dois obstáculos. O primeiro obstáculo vem do fato de que as cidades conectadas pela malha rodoviária atual não são facilmente comparáveis às cidades que não são conectadas. Idealmente, gostaríamos que elas fossem inicialmente bastante semelhantes, em média, em tudo à exceção da conexão rodoviária com Brasília. Esse cenário hipotético nos permitiria comparar as cidades não conectadas às conectadas, extraindo mais facilmente o efeito da construção das estradas sobre o bem-estar das pessoas. Uma forma simples de obter essa comparabilidade entre cidades conectadas e não conectadas seria por meio da aleatorização. Se os municípios fossem escolhidos para serem ligados a Brasília de modo aleatório – por um sorteio, por exemplo – poderíamos considerar nossas cidades sorteadas como pertencentes a um grupo de tratamento e as não-sorteadas a um grupo de controle, nos moldes clássicos já conhecidos e usados há décadas por outras ciências. Conexões rodoviárias intermunicipais, no entanto, não são determinadas de modo aleatório, mas com base nas demandas econômicas e influência política de cada cidade: municípios são conectados porque são economicamente mais desenvolvidos, e não mais desenvolvidos porque são conectados. A nossa solução foi criar uma malha hipotética, supondo que o objetivo do governo foi o de ligar Brasília às demais capitais estaduais de forma a minimizar custos de construção da malha, e não o de atender às demandas econômicas desses municípios. Em seguida, comparamos os municípios que estão “acidentalmente” ligados à essa malha hipotética, simplesmente pelo fato de estarem no meio do caminho entre Brasília e uma capital estadual, àqueles que estão longe desse caminho.

O segundo obstáculo que enfrentamos é o potencial efeito indireto que as estradas exercem sobre a migração através da redução dos preços dos bens comercializáveis. Por exemplo: o aumento do número de pessoas que migraram para São Paulo após a expansão da malha pode se dever tanto à facilidade de deslocamento até esse destino (menor custo de migração), quanto à atratividade da região por oferecer preços mais baixos (menor custo de vida). A solução que encontramos foi supor que o custo de migrar até um determinado município de destino depende do tempo de viagem entre o destino e o município de origem do migrante, mas o custo de vida no destino é independente da origem. Dessa forma, consegue-se identificar o impacto das estradas no custo de migrar até São Paulo por meio da comparação entre o fluxo de imigrantes que vieram de cidades conectadas a São Paulo com o fluxo vindo de cidades não conectadas a São Paulo.  Esse exercício empírico é realizado para todos os possíveis pares origem-destino, e apenas é viável por que o censo demográfico brasileiro é rico em informação sobre movimentos migratórios internos.

A análise empírica, juntamente com o modelo econômico, revela alguns efeitos importantes das estradas sobre a economia. Primeiro, estradas estimulam migração: uma redução de 10% no tempo de viagem aumenta o fluxo migratório interno em 25.5%, em média. Além disso, a magnitude dos custos de migração é significativa: para estar disposto a migrar para uma outra cidade, um trabalhador típico teria que ser recompensando com um aumento de 20 vezes em sua renda real! Dado que a evidência empírica indica que o tempo de transporte entre municípios é parte importante desses custos, a expansão da malha rodoviária auxilia na redução de barreiras ao movimento geográfico da mão de obra.

De posse de nossas estimativas, foi possível então fazer alguns exercícios imaginativos. O primeiro deles pergunta: e se as rodovias radiais não existissem? Quais seriam as consequências? Neste caso, nossas simulações indicam que sem as estradas os custos de transporte de mercadorias seriam 41% mais elevados, e os custos de migração 68% mais altos. Sem as estradas haveria uma redução de 15.9% na renda real. Do total dessa redução, 88% seria atribuído ao efeito da perda de integração dos mercados de bens, e 12% à perda da integração dos mercados de trabalho. Embora a contribuição da integração do mercado de bens seja mais importante, a presença de custos de migração implica que o efeito das estradas sobre o bem-estar é maior nas cidades próximas às rodovias radiais; na ausência de custos de migração, esse efeito seria distribuído de forma homogênea.

O segundo exercício imagina o que ocorreria se as rodovias houvessem sido construídas de forma a ligar a antiga capital, Rio de Janeiro, às demais capitais estaduais. Esse cenário não traz grandes mudanças nos custos médios de transporte e migração, mas representa uma alteração na localização geográfica das estradas. Neste caso, o efeito seria uma redução de 1.7% na renda real.

Desse estudo concluímos que é importante levar em conta a redução de barreiras não apenas ao movimento de bens, mas também ao movimento espacial da mão de obra ao se medir o impacto econômico da expansão da malha rodoviária: desconsiderá-lo levaria a uma subestimação desses efeitos positivos sobre a renda real. Outra conclusão importante é a de que, quando barreiras à migração existem, o potencial impacto positivo de politicas públicas de desenvolvimento regional tende a beneficiar desproporcionalmente mais aquelas regiões que são alvo direto dessas politicas, com pouca propagação às demais regiões do país. A maior conectividade dos mercados regionais por meio da malha rodoviária auxilia na difusão espacial dos ganhos econômicos de políticas públicas.

Print Friendly

Autor(es)

Jaqueline Oliveira

Jaqueline Oliveira possui Ph.D. em Economia pela Yale University. Ela é atualmente professora da Rhodes College, em Memphis (USA). Sua pesquisa se concentra em Desenvolvimento Econômico, Economia do Trabalho, Economia da Família e Economia Urbana.

Veja também

Voto obrigatório faz com que as pessoas busquem se informar?

A obrigatoriedade do voto é uma característica marcante de nossa democracia. A cada dois anos os eleitores são chamados às urnas para cumprir o dever cívico de escolher quem irá representá-los.