terça-feira , 17 julho 2018
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Desigualdade de Renda e Casamentos Seletivos no Brasil

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O Brasil possui um dos mais elevados índices de pobreza no mundo, cerca de 90% dos países apresentam um grau de desigualdade de renda inferior à brasileira, segundo o Banco Mundial.

Além disso, o país apresenta um fato notório, o seu grau de desigualdade vem apresentando uma queda contínua e acentuada desde 2001, como podemos observar na figura abaixo. Assim, analisar a relação entre comportamentos individuais da população e distribuição de renda se mostra particularmente interessante para o nosso país.

Figura 1: Evolução do Índice de Gini, de 1976 a 2010

 

Um importante comportamento individual, que vendo sendo documentado pela literatura internacional sobre o assunto, é como as pessoas vêm escolhendo os seus companheiros e formando suas famílias. Sociólogos e economistas apontam para a tendência crescente de pessoas se casarem com outras que possuem características socioeconômicas semelhantes, em particular o nível educacional. Esse fenômeno social é chamado comumente de crescimento do casamento seletivo (ou também de queda na diversidade conjugal). Assim, como educação é um importante determinante da renda individual, o crescimento dos casamentos seletivos pode afetar a distribuição de renda de uma economia.

Um exemplo bem simples pode nos mostrar esse ponto. Suponha que metade da população de um país tenha nível educacional universitário e a outra metade, não. Aqueles que frequentaram a universidade tenham renda de R$ 3.000,00 e os de baixo nível educacional ganham apenas R$ 1.000,00. Se os homens de alto nível educacional se casarem com mulheres de baixo nível educacional e as mulheres de nível universitário se casarem com homens de poucos anos de estudo, a renda de cada casal será R$ 4.000,00. Contudo, se o extremo oposto acontecer e as pessoas de alto nível educacional apenas se casarem com outras de nível educacional semelhante, os casais de nível universitário terão renda de R$ 6.000,00, enquanto que os casais de baixo nível de escolaridade ganharão R$ 2.000,00. Assim, os casais no topo da distribuição de renda ganharão três vezes mais que os que estão no nível inferior.

O exemplo anterior é uma simplificação da realidade, mas que ilustra bem como decisões individuais afetam a distribuição de renda de um país. A partir da análise de dados dos censos demográficos de 1970 a 2010, estudamos como o crescimento no número de casamentos seletivos juntamente com a maior participação das mulheres no mercado de trabalho pode afetar a desigualdade de renda brasileira.

Para analisar o crescente fenômeno de casamentos entre pessoas de características semelhantes, dividimos as classes socioeconômicas brasileiras em quatro níveis educacionais: educação primária incompleta (PC-), primária (PC), secundária (SC) e universidade (C). Primeiramente, estimamos o coeficiente de correlação de Kendall τ entre os níveis educacionais do marido e da esposa para cada ano da nossa amostra (1970, 1980, 1991, 2000 e 2010). Essa estatística mede o grau de concordância entre duas séries, neste caso os níveis educacionais das esposas e dos maridos. Ou seja, quanto mais alta for essa estatística, maior é o número de casamentos seletivos. A evolução desse coeficiente ao longo do tempo pode ser observada na Figura 2 a seguir. Embora ele não cresça para todos os anos, o coeficiente τ é claramente maior em 2010 (0.43516) do que em 1970 (0.12160).

Figura 2: Crescimento de casamentos seletivos

 

A partir dessa tendência no mercado de casamentos, surge uma questão: como ela afeta a desigualdade de renda brasileira? Primeiro, precisamos mensurar a desigualdade, e existem basicamente duas maneiras de fazê-lo. Uma é através da curva de Lorenz. Ao plotarmos a curva de Lorenz em um gráfico, temos no eixo horizontal os percentis das famílias e no eixo vertical, a fração da renda total da economia que cada percentil de família possui. Assim, a linha de 45º representa uma perfeita igualdade de renda e quanto mais afastada a curva de Lorenz estiver dessa linha, pior é a desigualdade de renda do país. E a outra medida de desigualdade, o índice de Gini, é duas vezes a área entre a curva de Lorenz e a reta de 45º. O coeficiente de Gini retorna um valor de zero, quando há perfeita igualdade de renda e tem valor igual a um, quando há perfeita desigualdade. No Brasil, o coeficiente de Gini caiu de 0.609 em 1970 para 0.572 em 2010. Assim, apesar do aumento do número de casamentos seletivos, a desigualdade de renda melhorou entre 1970 e 2010. Em um primeiro momento, esse fato contradiz o que os estudos em países desenvolvidos vêm apontando, isto é, que o crescente número de casamentos seletivos tem contribuído para o aumento da desigualdade de renda entre as famílias. Contudo, a partir de alguns experimentos, é possível mostrar que a desigualdade de renda no Brasil poderia ter melhorado ainda mais caso esse fenômeno no mercado de casamentos não tivesse ocorrido.

O primeiro experimento é nos perguntar como seria a desigualdade de renda caso os casamentos tivessem ocorrido de forma aleatória em vez de seletivos. Tanto para 1970 quanto para 2010, há uma queda no Índice de Gini se comparamos com os dados (indo de 0.609 para 0.587 em 1970 e de 0.572 para 0.543 em 2010). A partir desses números, podemos concluir que o crescimento na tendência de casamentos seletivos impacta a distribuição de renda em uma economia e que a queda ligeiramente maior para o ano de 2010 mostra um nível de casamento seletivo mais elevado. Assim, a resposta à pergunta anterior fica evidente: a desigualdade de renda brasileira teria melhorado ainda mais caso a diversidade conjugal não tivesse caído ao longo dos anos.

Outro interessante experimento é verificar o que ocorreria com a distribuição de renda caso os casamentos em 2010 tivessem ocorrido da mesma maneira que em 1970. Mas esse experimento é complicado, pois em 2010, as pessoas (homens e principalmente mulheres) tinham níveis educacionais mais altos do que em 1970. Com isso, a distribuição marginal de maridos e esposas em cada nível educacional mudou bastante entre 1970 e 2010. Para operacionalizar esse exercício, padronizamos os dados de casamentos seletivos (utilizando o procedimento proposto por Mosteller (1968)). Assim, os índices de Gini para esse experimento seriam 0.603 em 1970 e 0.561 em 2010. Portanto, caso as pessoas em 2010 se casassem como em 1970, o coeficiente de Gini teria caído de 0.572 para 0.561, ou seja, teríamos uma melhora na distribuição de renda brasileira.

 

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Autor(es)

Cezar Santos

Cézar Santos é Professor Associado na FGV/EPGE - Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getulio Vargas. Antes de juntar-se à EPGE, recebeu o título de Ph.D. in Economics da University of Pennsylvania em 2012 e foi professor na University of Mannheim (Alemanha) entre 2012 e 2014. Sua pesquisa concentra-se principalmente nas interseções de Macroeconomia, Economia do Trabalho e Economia da Família.

Luciene Pereira

Luciene Pereira é analista na área de pesquisa macroeconômica do Bahia Asset Management (antigo BBM Investimentos) desde 2016. Recebeu seu título de Doutor em Economia pela EPGE/FGV em 2016, concentrando sua pesquisa em Macroeconomia, Desenvolvimento Econômico e Economia da Família.

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